The Same Day



Where God is great and guns are good


0 notes

Bitch,

todas as cartas e recadinhos e mensagens secretas: todas nelas meu amor declarado por você. 


3 notes

Clara,

Eu tento entender e aceitar esses dias em que seríamos capazes de cuspir e renegar todos os olhares e promessas de amor. Mas também persigo o óbvio, que pode te desagradar, me perdoe: mas e o mundo de dentro?

E a nossa fuga planejada? Os calendários e dias marcados à caneta? 

Eu quero dizer, do que adianta ter dedos, ter outras vidas e não nos darmos o luxo, de vez em quando, de sumir do mundo? De escrever e escrever e se doer? 

Não é tapinha nas costas ou terapia, baby. É pegar o avião como eu estava te dizendo. Ou ter a certeza de que um dia pagará pelas passagens. É tilintar total às seis da tarde e fumar à janela. Sonhar com a queda, também. Mas deixar o precipício para as folhas de carbono. 

É Virginia Woof a caminha do rio. É pisar no chão daquele nosso jeito e inventar outro nome. Outra personalidade. Melhorada. 

Como nos disse Clarice: 

-Bonita? 

- Não. Mulher.

You know, Bandini. You know. Tire imediatamente a merda debaixo dos seus sapatos. 


5 notes

3 notes

Clara,

Escuto Edith Piaf nessa terça quase noite. Mas ainda há sol: te prometo. E fumo muito. Estou sozinha.

Me lembro de Cerdan, do avião que caiu antes de pousar na França e as visões posteriores de Piaf. A morfina, a heroína. Tudo que termina por nos salvar. 

Te respondo que também me doem esses dias comuns. Por nada. Mas principalmente por tudo. Porque há muito por se doer. 

Só não fujo do ringue (e sei que você também não). Tento escrever e falho muito. Mas o trabalho continua.

E dezembro sempre acontece.


9 notes

Uma vez me disseram que para saber tocar gaita você precisa nascer sabendo. Coisa de sangue, de alma, de segredo antigo compactuado ou apenas uma questão de ouvido, de sensibilidade mesmo. 

É aí que me encontro marginal em tudo. Não consigo ler em voz alta , lembrar de uma música enquanto outra toca. Não sei fazer poesia, não sei costurar, fazer desenhos, atravessar a rua direito ou entender a bolsa de valores. 

Não gosto de amarelo, de som alto, da lua, de fio solto na blusa, quadro torto na parede e pessoas. Especialmente cultivo uma aversão inata e irremediável por pessoas. 

Coisa de pele, frescurice-aguda-de-filho-único ou uma paranóia irreversível causada por anos de decepções e mágoas freudianas. Ou outra vida, nunca se sabe.

Podemos ter morado em Paris em 1900. Vagado por ruas frias, clandestinos em nossa própria existência. Com toda certeza bebíamos absinto acompanhados pelos impressionistas, pelo cheiro de cafés e croissants que nos matava à meia noite em ponto. 

E sonhávamos em fugir. Existe algo mais bonito que fugir de Paris? Para fugir da cidade mais bonita do mundo é preciso coragem, Santiago. E disso, e talvez apenas disso, nós nunca pudemos nos queixar.

Mas como eu dizia, não gosto de ninguém além de você. 

A pior notícia é que completo vinte anos em três dias. E não há cura para os meus medos ainda. 

PS: O sol ainda me acorda como um tapa na cara, Santiago.

Espero você para colocar as cortinas.  Dentre todos os motivos do mundo, porque preciso de uma desculpa para ver você.

Ana L. Alves

1 note

4 notes

Na minha rede tem flores. Flores roxas, Santiago. A televisão como sempre me incomoda e me acompanha nesses dias frenéticos de insanidade calada. Desespero de toda a vida que acontece ao meu lado e da qual eu não consigo participar. Me sinto um personagem enfadado e neurótico de Woody Allen em 1980.

As baladinhas não tocam, mas o complexo febril de Mia Farrow me persegue. Com a diferença de que sou eu quem entro em cena, que salto para a tela e observo todo e qualquer sinal de existência.

A janela aberta qual um estandarte, o sol laranja e confortável das seis da tarde é o meu Woodstock particular, por onde eu espio e sinto o suor de todo e quaquer sinal de movimento. E fico horas pensando “Queria eu andar assim pela rua” ou então “Queria eu ser essas pernas e esses olhos e sentir na alma todos os lugares que você já pisou ou já viu maravilhado”. 

Meu defeito inevitável  foi ter nascido ariana, Santiago. Abril é o meu carma e um dos meus maiores pecados.

De qualquer maneira a condenação de escrever não me faz mais corajosa do que qualquer outra pessoa que levante todos os dias às seis da manhã, que trabalha, estuda e namora aos sábados à noite.

Ainda sonho com um lugar onde as rosas não cresçam, onde eu possa mergulhar à dois mil pés como um míssel cabalístico e retornar invencível e intocada. Um lugar onde o sol se esconderia todos os dias transtornado pela chuva que nos levaria à próxima, grande inundação.

 E onde eu me debateria contra você, como um trem desgovernado. E nossos corpos sairiam ilesos do grande combate.

Porque amar nada mais é do que atirar-se de precipícios. 

E eu, nada mais sou do que um coração silencioso que vive a imaginar o impacto do abismo sem retorno.

Ana L. Alves

14 notes "

Qual é a distância exata que nos separa agora, Santiago? Quantas estradas, cidades e quilômetros?

Eu já estive em todos os lugares em que você também sonhou em viver.

"
Cartas afogadas em Buenos Aires. Ana L. Alves

4 notes "

Se eu morrer jovem, enterre-me em cetim. Deite-me em uma cama de rosas. Afunde-me em um rio, no meio da madrugada. Mande-me para longe com palavras de amor.

E eu usarei pérolas.

"
If i die young.

2 notes
Le pardon, é Abril.

Penso em datas, penso em muitos outros dias que se repetem em nomes mais não em acontecimentos. Vinte e quatro de Abril, ontem e um ano atrás, quando eu te conheci e te vi partir respectivamente.

Vinte e quatro de Abril, e em Abril temos que tomar todo o cuidado com os fatos. As janelas devem ser fechadas silenciosamente e os guarda-chuvas devem ficar atentos, os sapatos alinhados e devidamente engraxados. Tintas brancas, pretas, quadros em preto e branco e muitos muitos discos. Todos sendo riscados, dia após dia, na altura da garganta, a voz arranhada do outro lado do universo. 

La vie en Rose, eu penso, combina com Abril. E faz o sol se esconder em silêncio. O sol laranja agonizando a previsão da noite que não pode ser evitada. As flores roxas de plástico a tremular no impacto das máquinas que não param de tecer.

Ainda escrevo, você pode perceber.

Cetim e mil tecidos sendo fiados dentro de toda a linha de cores, maravilha à azul-anil. E todas as notícias, todas as matérias e impressos sendo distribuídos por meninos em esquinas que balançam o jornal acima dos ombros em um adeus interminável, como no titanic pré-afundado no Atlântico Norte. Nada me passará despercebido. Não deixarei nada para trás, inclusive você que hoje cabe dentro da bolsa. 

Paris nunca esteve tão bonita. O canal, você teria que estar aqui para entender a altura do rio. Me sinto à beira da praia quando descanso assim os pés na água. E me lembro de suas massagens, o cheiro da pipoca e o melado sendo arrebentado pelo teto da casa. E os cremes, a rede, os tapetes de ponto e cruz. Nosso l’amour que se protegia entre as paredes brancas do apartamento alugado no centro da cidade. 

Pensarei em coisas distantes, em outras vidas e pessoas que não existem mais. Esperarei que me perdoe. Que cante músicas antes de dormir e que continue penteando os meus cabelos pretos, molhados ao reflexo da lua. 

Mas é Abril. É paris. É Godard e outros tempos. Tomo cuidado agora, respiro baixo, acuada. Trago os discos ao peito. Sonho de olhos abertos. Camisa branca, de flanela, 1974 e sapatos coloridos. 

Paris é uma festa. Eu te direi algum dia. Talvez abril, no ano que vem, quando voltar ao centro da cidade para fazer compras e a luz que sai dos seus dedos tocarem o centro do meu peito. E todas as luzes e almas e explosões caírem ao pé de nossa cama, a nossa última redenção. 

Dançaremos tango. E nada mais. 

Ana L. Alves


6 notes

4 notes "

Amigo, senhor saravá, Xangô me mandou lhe dizer: se é canto de Ossanha não vá. Que muito vai se arrepender.

Pergunte pro seu orixá: o amor só é bom se doer.

.

"
Canto de Ossanha/Vinicius de Moraes

6 notes

E quando eu me sinto bem, me sinto meio vazia de tristezas (e isso é um perigo), procuro incessantemente outras dores, sofrimentos alheios, lamentos que não são meus, mas que tento vampirizar como uma dependente de dramas, seja eles quais forem.

Derramo meu corpo sobre o teu. Espalho meus pés, meu vinho tinto, meu vestido recortado sobre as coxas grossas e sei que posso ser mais forte com Deus e minhas armas à tiracolo. Meu convite silente para a nossa guerra interminável de amores e poemas escrito às costas.

E conto nos dedos os dias em que eu te dizia sobre Netuno, sobre a distância dele - e nossa - e os sonhos em que eu também me tornava azul.

 Azul baby, você dizia, pode ser a minha cor favorita se for a tua.

E eu era: a tua tristeza mais bonita e contida. Eu era o lábio roxo recoberto de cinzas. Eu era as estrelas que você procurava às três da manhã como relâmpagos esquecidos de nossa última tempestade.

Porque ainda há em mim, urgências passadas e desesperadoras de uma vida que não se completa. Porque metade de mim corre avenidas e transatlânticos atrás de histórias que eu queria que fossem minhas. E porque teu sangue tem em mim um poder débil e dependente, que corre pulsante como se me pertencesse e que ultrapassa meu coração como um grito de Munch.

E nada disso é meu ou verdadeiro.

Ainda carrego a convicção de que a vida é mais do que as contas atrasadas ou o emprego perdido. Mas é que em mim, as coisas doem como explosões solares. E meus freios foram cortados há muito tempo, minhas mãos tem sempre um cigarro descansando e meu coração, meu coração baby, só deseja sucumbir depois da parada cardíaca ao ver teus olhos coloridos se petrificarem no encontro dos meus.

Com a permissão concedida do vinho derramado sobre nossos corpos e que se transforma no nosso sangue consumado. Com minha patologia e cinismo declarado.

E outros orgasmos à parte


31 notes

23 notes

- Eu posso viver de você? - Ela me perguntou com os olhos baixos, o rosto soturno afundado por dentro de suas mágoas antigas e a blusa de alça arrebentada que deixava seu seio direito aparecendo.

- Posso? - Ela insistiu.

- Pode. - Eu respondi.

- Mas ninguém gosta de ser vampirizado assim, meu bem.

- É que ando tão débil. Tão fracassadamente inútil. Não consigo mais aguentar meus pesadelos. Ontem mesmo sonhei que tinha te deixado e ido para a China. E a ligação não completava, você não me atendia. E haviam viagens diárias de três horas. Exaustivas, Carlos.

-E vai suportar a metade do meu peso?

- Eu não sei. Mas nos meus sonhos, você sofre menos.

- As nossas dores serão sempre maiores, Ana. E ainda tem a consciência latente.

- O que tem a consciência latente?

- Se eu repartisse meus lamentos você ainda assim, não saberia do meu passado. Seria só a dor crua. Você não teria a consciência primordial de todas as vezes de que me negaram  uma oportunidade, de todas as vezes que mentiram ou fingiram que eu não existia. Mesmo que você se alimentasse de todos os meus medos, você não entenderia meus traumas e surras. Porque você não estava lá. 

 - E a lembrança é a maior das dores, Ana. É a lembrança. Sem ela, não há sofrimento.

- Então eu quero esquecer.

- Seria melhor uma outra vida, não acha?

- Talvez, mas aí você não existiria.

- Em todas as minhas apostas de vida você apareceria. Em todas, nosso encontro foi inevitável como um voo rasante em direção a minha janela. Não importa o suicidio, o acidente letal ou a parada cardíaca. Não importa se será em Las Vegas ou na China Comunista. Minha boca sempre despencará dentro da sua e meus dentes ainda vão se chocar contra os seus no meio da nossa solidão avassaladora.

- Avassaladora?

- Claro. É uma boa palavra para a nossa solidão de encontros intermináveis. Não acha?

- Acho que sim.

- Não li meu horóscopo hoje.

- Por isso a patologia, baby? Quer que eu leia para você?

- Quero.

- Hoje a sua lua está em Marte e você precisa se conformar. A purificação não virá de dentro devido a tempestade e a loucura. Use as muletas quando sair de casa.

- Começou a chover. Você fecha as janelas?

- E tem como fechar as janelas de dentro?

- Tempestade interna, Carlos, só passa depois que a lua ceder a ao terror do sol.

- Terror do sol?

- E não é terrível uma combustão eminente?

- Você se esquece do apocalipse? O mundo terminará antes congelado pelo frio.  Terminará inerte, petrificado por dois mil anos de devastação e isolamento. A boca do mundo tapada, sem direito ao último grito de dor. Frio como o resto do universo, impotente e insignificante dentro das mãos de Deus.

- E você não tem medo?

- Não mais. Minha boca já foi costurada pela sua e silenciada por seus beijos. Morrer ao teu lado será meu último espetáculo e graça. E eu não poderia exigir nada mais grandioso da morte. 

- Ainda assim quero esquecer, Carlos.

- Eu também. Mas ao mesmo tempo eu tenho um carinho tão grande pelas minhas dores. Tenho tanto medo de ser feliz. 

- Como se o corpo não suportasse o peso que a felicidade carrega?

- Como se a felicidade não fosse feita para os homens. E sim para os deuses.

- Tenho que aprender a sofrer, Carlos.

- E eu a chorar. 

(…)